“Ti a mim, me a ti, e tanto”*

Era Dia das Mães.

Com frase do padre pop no Domingão do Faustão, me decidia pela estética profunda. “Há que se berrar do alto de um prédio aquilo que nos foi sussurrado ao ouvido”, dizia.

Depois de cozinhar um recém inventado molho caseiro para o tradicional miojo, composto de tomates-cereja (favoritos do falecido e quase inintroduzido avô), alho, cebola desidratada, ervas finas, com muito manjericão, banhados em um azeite extra-virgem português, e de ter me orgulhado de mim mesma em voz alta, recebendo como resposta o fato do citado sucesso gastronômico ser herança congênita da avó também portuguesa como o azeite (aquela mesma que nomeou-me), tirei o plástico que embalava o novo livro.

Abri. Página 123, Guimarães Rosa:

Partida do Audaz Navegante.

(*in: Primeiras Estórias).

 

 



Escrito por Ana Amalia às 18h42
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O que é o entre?

Entre o sentimento estético e a consciência social; entre o belo e o dever; entre o único e o valorizado; entre o meu e o de vocês, não há entre nenhum.

Bendita preposição indicativa de espaço vago, aquilo que está meio a duas coisas: o nada: cheio de ar, visível por sua inexistência. Espaço vazio localizado na distância de dois obejtos/fatos/pessoas... Montão de ar.

Em Inglês, duas diferentes preposições: se entre dois, between, se entre vários, among. No Português, a mesma: entre. No imperativo, uma ordem para que algo ou alguém acesse o espaço do interlocutor: Entre!

Para Gessinger, uma oposição não simétrica, genial: “Entre o real e o abstrato, a loucura e a lucidez, entre o informe e a nudez... entre um copo e outro da mesma bebida e entre tantos corpos com a mesma ferida (eu me sinto um estrangeiro, passageiro de outro trem...)”.

Para mim, segundo Freud, o entre é um trauma. Vem da infância. Por Lacan: a culpa é do pai, também.

Segundo Mary Douglas, e para a Antropologia, é aquele inclassificável. Ao mesmo tempo poderoso, por revelar o sistema classificatório estruturalista, e rejeitado por não ser nem uma coisa, nem outra. É o cabelo, a unha, o sêmen, o suor e o sangue. O ornitorrinco, a travesti.

Já para o mundo simbólico, não há entre nenhum. A beleza é a própria percepção sensorial daquilo que não deve ser entendido, mas compartilhado. Compartilhamento de signos universais que nos atingem intelectualmente pelos sentidos. E é por ai que eu vou.

Entro.

E o que eu mais quero ver é beleza no mundo.

 



Escrito por Ana Amalia às 18h30
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